Existe uma “melhor” toxina botulínica? O que mostram as evidências científicas dos últimos cinco anos
Dr. Luis Angelo Ozan Maligieri, MSc, MBA
Farmacêutico — CRF-SP 23.933
Botox®, Dysport®, Xeomin®, Nabota®, Letybo®, Botulift®, Botulim®...
Com a expansão do mercado de toxina botulínica no Brasil, aumentaram também as comparações entre marcas. Nas redes sociais, tornou-se relativamente comum encontrar profissionais classificando produtos em rankings, muitas vezes atribuindo posições como “melhor”, “segunda melhor” ou “pior toxina”.
Mas existe evidência científica suficiente para fazer esse tipo de classificação?
Foi a partir dessa pergunta que realizei uma revisão crítica da literatura científica recente, com ênfase nos trabalhos publicados nos últimos cinco anos e indexados no PubMed, priorizando revisões sistemáticas, meta-análises, ensaios clínicos randomizados e estudos comparativos relacionados às principais formulações de toxina botulínica tipo A utilizadas na prática estética e disponíveis no mercado brasileiro.
E a primeira conclusão é provavelmente a mais importante:
a literatura atual não sustenta a criação de um ranking universal e simplista de marcas, da “melhor” para a “pior”.
O que encontramos são formulações com diferentes volumes de evidência, diferentes características farmacológicas e diferentes históricos de utilização clínica.
E isso é muito diferente de estabelecer um pódio.
O que estamos comparando?
Embora sejam frequentemente agrupadas sob o nome genérico de “toxina botulínica”, as formulações comerciais não devem ser consideradas produtos simplesmente intercambiáveis.
Entre as principais moléculas presentes na literatura internacional estão:
• onabotulinumtoxinA — Botox®;
• abobotulinumtoxinA — Dysport®;
• incobotulinumtoxinA — Xeomin®;
• prabotulinumtoxinA — Nabota®/Jeuveau®;
• letibotulinumtoxinA — Letybo®.
Existem ainda outras formulações disponíveis no mercado brasileiro.
É fundamental compreender que diferenças de processo de fabricação, formulação, proteínas associadas, quantidade de neurotoxina biologicamente ativa, potência e unidades utilizadas impedem uma interpretação simplista de equivalência entre os produtos.
Uma unidade de uma formulação não deve ser automaticamente interpretada como equivalente a uma unidade de outra.
Esse ponto é especialmente importante quando comparamos produtos como Dysport® com formulações como Botox®, Xeomin® ou Nabota®.
Botox®: a referência histórica
A onabotulinumtoxinA possui uma vantagem difícil de ignorar: o tamanho do seu corpo de evidências acumulado ao longo de décadas.
Uma meta-análise publicada em 2022 avaliou 14 ensaios clínicos randomizados, totalizando 8.369 participantes, analisando o tratamento de linhas glabelares, frontais e periorbitais.
Os resultados confirmaram eficácia significativa da onabotulinumtoxinA no tratamento das linhas de expressão do terço superior da face.
Quando as três regiões foram tratadas simultaneamente com a dose cumulativa estudada de 64 unidades, a análise estimou aproximadamente 182 dias para retorno ao estado de não respondedor.
Outro estudo de grande relevância analisou dados de segurança provenientes de 18 estudos de registro, envolvendo 5.298 participantes tratados para linhas glabelares, frontais ou periorbitais. O trabalho confirmou o perfil de segurança conhecido da onabotulinumtoxinA, sem identificação de novos sinais de segurança.
Portanto, quando falamos em quantidade de evidência acumulada, histórico de utilização e previsibilidade, Botox® permanece como uma importante referência científica.
Isso, entretanto, não significa que todos os estudos demonstrem superioridade clínica sobre todas as demais formulações.
Xeomin®: pureza da formulação e a discussão sobre imunogenicidade
A incobotulinumtoxinA ocupa uma posição particularmente interessante na literatura.
Sua formulação não contém as proteínas complexantes clostridiais acessórias presentes em algumas preparações, característica que frequentemente aparece nas discussões relacionadas à imunogenicidade.
Por que isso importa?
Porque pacientes submetidos repetidamente à toxina botulínica podem, em determinadas circunstâncias, desenvolver anticorpos neutralizantes capazes de reduzir a resposta clínica.
É importante ressaltar que esse fenômeno é incomum na prática estética, especialmente quando são utilizadas doses adequadas e intervalos apropriados.
Entretanto, em 2025 foi publicado um estudo de modelagem envolvendo dados de 14 estudos e 8.190 participantes. Dose e frequência de tratamento apareceram como importantes fatores associados ao desenvolvimento de anticorpos neutralizantes, e a incobotulinumtoxinA apresentou a menor probabilidade estimada entre as formulações analisadas.
Esse resultado não significa que outras toxinas devam ser consideradas inadequadas ou clinicamente “imunogênicas”. Significa que, para pacientes submetidos a tratamentos repetidos durante muitos anos, imunogenicidade é mais uma variável que merece fazer parte do raciocínio clínico.
Estudos recentes também continuam demonstrando eficácia da incobotulinumtoxinA no tratamento simultâneo das linhas do terço superior da face.
Dysport®: ampla experiência clínica e evidência consistente
A abobotulinumtoxinA também possui um corpo científico extenso.
Uma meta-análise publicada em 2024 reuniu nove ensaios clínicos randomizados sobre o tratamento de linhas glabelares moderadas a graves e confirmou eficácia da formulação, sem diferença significativa nos eventos adversos analisados em comparação aos grupos-controle.
Uma revisão sistemática sobre início e duração da abobotulinumtoxinA identificou 42 trabalhos originais. Todos os 24 estudos que avaliaram eficácia durante a primeira semana encontraram algum grau de resposta no primeiro momento analisado, e todos os 37 trabalhos que avaliaram duração demonstraram alguma resposta após 12 semanas.
Mas existe uma consideração prática essencial:
as unidades de Dysport® não devem ser diretamente equiparadas às unidades de Botox®, Xeomin® ou outras formulações.
Comparar simplesmente o preço por unidade entre produtos diferentes pode, portanto, produzir uma conclusão econômica equivocada.
Nabota®: evidência comparativa recente merece atenção
A prabotulinumtoxinA é particularmente interessante porque vem sendo avaliada em estudos comparativos contemporâneos.
Um dos trabalhos mais relevantes foi publicado no JAMA Dermatology em 2025.
Nesse ensaio clínico randomizado e duplo-cego, 143 mulheres foram distribuídas para tratamento com quatro formulações diferentes:
• onabotulinumtoxinA;
• abobotulinumtoxinA;
• prabotulinumtoxinA;
• incobotulinumtoxinA.
Os pesquisadores utilizaram fotogrametria dinâmica tridimensional para analisar a deformação glabelar nos dias 3, 30, 90 e 180.
AbobotulinumtoxinA e prabotulinumtoxinA apresentaram início de efeito mais rápido no terceiro dia.
O pico de efeito foi semelhante entre as toxinas.
Aos 180 dias, algumas formulações ainda apresentavam efeito significativo em relação ao estado basal. Nesse estudo específico, a prabotulinumtoxinA apresentou maior efeito que a onabotulinumtoxinA na avaliação de 180 dias.
Esse achado é importante.
Mas ele também demonstra por que precisamos ter cuidado ao transformar um estudo em um ranking definitivo.
Resultados podem variar conforme dose, método de avaliação, região tratada, população estudada e momento em que o efeito é mensurado.
O correto não é concluir que uma toxina “venceu”.
O correto é incorporar aquele resultado ao conjunto das evidências disponíveis.
Letybo®: uma formulação mais recente com evidência crescente
A letibotulinumtoxinA representa outro exemplo de como o cenário está mudando rapidamente.
Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 2026 avaliou três ensaios clínicos randomizados envolvendo 1.272 pacientes com linhas glabelares moderadas a graves.
A letibotulinumtoxinA apresentou eficácia significativamente superior ao placebo, com manutenção estatisticamente significativa do efeito nas semanas 12 e 16.
A análise também não encontrou aumento significativo de eventos adversos graves, não graves ou eventos emergentes do tratamento em geral.
Portanto, classificá-la simplesmente como uma “toxina nova com pouca evidência” já não representa adequadamente o estágio atual da literatura.
Seu corpo científico é menor que o acumulado ao longo de décadas por algumas formulações tradicionais — o que é esperado —, mas vem crescendo.
E quando todas são comparadas?
Uma network meta-analysis de ensaios clínicos randomizados publicada em 2022 avaliou diferentes formulações de toxina botulínica tipo A para linhas glabelares.
As formulações estudadas apresentaram eficácia claramente superior ao placebo.
Mais importante para esta discussão: não foram observadas diferenças significativas entre as preparações analisadas quanto à incidência de eventos adversos relacionados ao tratamento ou ao medicamento.
Algumas diferenças de eficácia apareceram em determinados desfechos e formulações, mas isso não autoriza transformar os resultados em um ranking universal aplicável a qualquer paciente, dose, indicação ou técnica.
Uma ampla revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026 sobre o uso cosmético da toxina botulínica A no terço superior também reforça a eficácia do tratamento, mas chama atenção para diferenças metodológicas e heterogeneidade entre os estudos.
Essa heterogeneidade é justamente uma das razões pelas quais devemos ter cautela com comparações simplificadas.
Então qual é a melhor toxina botulínica?
Talvez essa seja a pergunta errada.
A pergunta cientificamente mais interessante seria:
Qual formulação apresenta características mais adequadas para determinado paciente, indicação e estratégia terapêutica?
A escolha pode envolver:
• robustez da evidência disponível;
• indicação clínica;
• anatomia e massa muscular;
• objetivo terapêutico;
• dose necessária;
• comportamento esperado da formulação;
• experiência prévia do paciente;
• histórico de resposta;
• frequência de tratamento;
• imunogenicidade;
• perfil de segurança;
• procedência e rastreabilidade;
• armazenamento e cadeia de frio;
• custo por tratamento — e não simplesmente custo por frasco.
Além disso, existe outra variável que frequentemente recebe menos atenção do que deveria:
o profissional.
Conhecimento anatômico, avaliação muscular individualizada, seleção dos pontos, dose, profundidade, volume aplicado e técnica podem interferir decisivamente no resultado.
Uma excelente toxina utilizada com planejamento inadequado não se transforma em excelente tratamento apenas por causa da marca impressa no frasco.
É possível fazer um ranking?
Se o critério for quantidade e maturidade da evidência científica, podemos reconhecer que determinadas formulações possuem literatura mais extensa.
OnabotulinumtoxinA, abobotulinumtoxinA e incobotulinumtoxinA contam com extensa experiência científica e clínica acumulada.
PrabotulinumtoxinA apresenta estudos comparativos recentes bastante relevantes.
LetibotulinumtoxinA vem acumulando ensaios clínicos e já possui meta-análise recente sustentando eficácia e segurança para linhas glabelares.
Outras formulações comercializadas no Brasil podem apresentar experiência clínica e registro sanitário, mas possuem menor densidade de estudos comparativos contemporâneos indexados internacionalmente.
Isso é hierarquia de robustez da evidência. Não é um ranking da “melhor” para a “pior” toxina.
São conceitos completamente diferentes.
Um alerta sobre rankings nas redes sociais
As redes sociais favoreceram um tipo de conteúdo rápido e de fácil consumo:
“Minha toxina preferida.”
“As cinco melhores toxinas.”
“Ranking das toxinas.”
“Essa dura mais.”
“Essa é mais forte.”
Como opinião ou relato de experiência individual, esse conteúdo pode ter seu espaço.
O problema surge quando uma experiência pessoal é apresentada como conclusão científica.
Se afirmamos que determinada toxina é superior a outra, precisamos perguntar:
Superior em quê?
Início de ação?
Pico de efeito?
Duração?
Satisfação?
Incidência de ptose?
Imunogenicidade?
Custo-efetividade?
E em qual dose?
Em qual região?
Em qual população?
Com qual método de avaliação?
E comparada diretamente em um ensaio clínico ou indiretamente entre estudos diferentes?
Sem responder a essas perguntas, um ranking pode parecer científico sem realmente sê-lo.
Minha conclusão após revisar a literatura
A literatura dos últimos cinco anos não me levou a encontrar uma “campeã absoluta”.
Levou-me a uma conclusão mais interessante:
as principais formulações de toxina botulínica tipo A possuem evidências relevantes de eficácia e segurança, mas não são produtos idênticos e não devem ser escolhidas ou comparadas de maneira simplista.
Botox® permanece uma referência pelo extraordinário corpo histórico de evidências.
Xeomin® possui características de formulação e dados de imunogenicidade particularmente interessantes.
Dysport® apresenta extensa experiência clínica e sólida documentação científica.
Nabota® vem demonstrando resultados muito interessantes em estudos comparativos modernos.
Letybo® apresenta um corpo de evidências recente e crescente, incluindo ensaios randomizados e meta-análise.
Para outras formulações disponíveis no mercado brasileiro, a quantidade de evidência comparativa internacional contemporânea pode ser menor — o que não equivale automaticamente a menor eficácia clínica.
Essa distinção é fundamental.
Ausência de evidência comparativa robusta não é evidência de inferioridade.
Por isso, não acredito que a ciência atualmente justifique transformar as toxinas botulínicas disponíveis no Brasil em um simples pódio.
Prefiro outra abordagem:
evidência científica + conhecimento do produto + avaliação individualizada + técnica + segurança + experiência clínica.
No final, talvez a pergunta mais madura não seja:
“Qual é a melhor toxina?”
Mas:
“Por que estou escolhendo esta toxina para este paciente?”
Quando conseguimos responder essa pergunta com fundamento científico, deixamos de escolher marcas.
Passamos a tomar decisões clínicas baseadas em evidências.
Dr. Luis Angelo Ozan Maligieri, MSc, MBA
Farmacêutico — CRF-SP 23.933
Revisão narrativa crítica da literatura recente, com ênfase em estudos indexados no PubMed publicados nos últimos cinco anos. Este texto não constitui uma revisão sistemática formal segundo protocolo PRISMA e não pretende estabelecer equivalência de dose ou intercambialidade entre produtos.
Referências selecionadas
Li X, Sui C, Xia X, Chen X. Efficacy and Safety of Botulinum Toxin Type A for Treatment of Glabellar Lines: A Network Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials. Aesthetic Plast Surg. 2023;47(1):365-377. PMID: 36097079.
Lemdani MS, et al. Comparison of Botulinum Toxin A Formulations for Glabellar Strain Treatment in Women: A Double-Blind Randomized Clinical Trial. JAMA Dermatol. 2025;161(7):723-730. PMID: 40434770.
Rahman E, et al. Predictive Modeling of Immunogenicity to Botulinum Toxin A Treatments for Glabellar Lines. Plast Reconstr Surg. 2025;155(4):676e-688e. PMID: 39287793.
Han X, Bai J, Kuang J. Efficacy and Safety of AbobotulinumtoxinA for Treatment of Moderate-to-Severe Glabellar Lines: A Meta-Analysis. Ophthalmic Plast Reconstr Surg. 2024;40(2):126-133. PMID: 38319153.
Masood M, et al. Efficacy and Safety of LetibotulinumtoxinA for the Treatment of Moderate-to-Severe Glabellar Lines: A Systematic Review and Meta-Analysis of RCTs. Aesthetic Plast Surg. 2026;50(9):3427-3437. PMID: 41501424.
The Efficacy and Duration of Onabotulinum Toxin A in Improving Upper Facial Expression Lines With 64-Unit Dose Optimization: A Systematic Review and Meta-Analysis With Trial Sequential Analysis of the Randomized Controlled Trials. Aesthet Surg J. 2023. PMID: 36099476.
Safety and tolerability of onabotulinumtoxinA in the treatment of upper facial lines from global registration studies in 5298 participants: A meta-analysis. JAAD Int. 2023. PMID: 38035126.
Cosmetic Botulinum Toxin A Injections to the Upper Face: A Systematic Review and Meta-Analysis of Clinical Studies. 2026. PMID: 41508559.